Da minha janela vejo
Todos ou muitas pessoas já conhecem o perfil no Facebook ou já viram algum vídeo por ele gravado, registrando os assaltos na região central do Rio de Janeiro. Além do perfil, existe um site.
A repercussão dos vídeos foi tamanha que chegou ao site G1 com uma matéria falando sobre a pessoa que filma e os desdobramentos da divulgação das filmagens. Pois bem, entre uma das pessoas procuradas para emitir uma opinião técnica sobre o ato do empresário foi a antropóloga Alba Zaluar, professora do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ.
Segue o que ela disse: "O carioca adora botar o Rio para baixo. Todos os outros estados e capitais têm problemas como os nossos, mas ninguém fala mal de sua cidade. O autor da página quer causar um impacto emocional. Tanta procura não me surpreende. A exploração do crime como algo atrativo é antiga.".
Ao ler isso, meu cérebro parou de processar o resto da informação do texto e perdeu a concentração. "Eu realmente li isso?" pensei. Pior que sim. Quero, desesperadamente, acreditar que a antropóloga não concluiu seu raciocínio ou que ele não foi colocado na íntegra na matéria publicada.
Adoro antropologia, uma das minhas matérias favoritas na época de faculdade e que me presenteou com um dos mais brilhantes orientadores que alguém poderia escolher. Seguindo uma análise antropológica, acredito mesmo sem ser antropóloga, o papel de um estudioso ao opinar sobre o fato seria expor as possíveis motivações e consequências. Entretanto, não foi isso o que encontramos na frase da antropóloga, e sim uma aparente tentativa de desqualificar a atitude do autor de filmar crimes e divulgá-los, criar um rótulo de que o carioca gosta de falar mal da sua cidade e outro de que adoram ser audiência de violência. A frase poderia ser creditada a qualquer pessoa pela falta de uma análise científica do fato. Parece-me cabível e, até mesmo mais interessante, um aprofundamento do que leva uma pessoa a passar horas em uma janela filmando meliantes praticando crimes em plena luz do dia. Deve ser o maior ócio produtivo que já vi! Ócio esse que apontou os holofotes da mídia para a realidade da Cidade Olímpica que se repete a, no mínimo, 15 anos. O papel de "vigilante" que o autor da página vem fazendo deveria ser do Município, Estado e da União, afinal nós e a antropóloga, pagamos impostos, correto? Tá aí um possível ponto de partida para a análise da antropóloga: seria o autor uma versão moderna de vigilante, uma vez que ele mostra os crimes sem revelar sua identidade.
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